De volta ao Vale

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Quinta-feira foi finalmente o dia do regresso ao Vale do Bestança. Quase a chegar, encontrei o senhor António e pedi-lhe para dizer ao Cláudio para aparecer lá em cima. Tinha ido a Cinfães. A semana passada o avô dele faleceu e eu tinha combinado dar uma volta nos “domínios” que ficaram agora à sua responsabilidade. Isso e três vacas, nove ovelhas, duas cabras, não sei quantas galinhas… três cães e uns gatos. Como é que isto pode ser?<br />
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A minha primeira tarefa foi dar uma volta grande. Demorei mais de duas horas. Fui tirando fotografias à quantidade incrível de flores por todo o lado. Vista geral, praticamente não vale a pena. O terreno ameaça parecer abandonado, “de velho”, como aqui dizem. Não entrei propriamente em pânico, já tenho experiência que na Primavera é uma explosão de vitalidade só vista. E com a chuva deste ano, do género, só se for uma floresta tropical.
A qualidade das fotografias não me impressionou por aí além. Vou seleccionar as melhores que publicarei nos próximos tempos na secção “Plantas não identificadas”, para ver se alguém ajuda nessa tarefa. A questão com as fotografias é que apesar de ter demorado muito tempo, tenho pressa. É um paradoxo. Quando ando no Sargaçal, é tudo calmo, mas eu ando com pressa. Tenho urgência em passar à tarefa útil. E tarefa útil é o que não falta.
Chateou-me ligeiramente ter caído com alguma violência. Fiquei com a cabeça a centímetros de uma pedra, dentro da levada — que não levava água. Foi colocar o pé num calhau com limo e bastou. No instinto de proteger a máquina fotográfica, caí de costas desamparado. Acontece, mas gostava mais de andar acompanhado.
Quando acabei de dar a volta, estava na Leira Grande a olhar cá para baixo, quando vejo o senhor Tibúrcio a comer laranjas. As minhas, entenda-se. Na tentativa de disfarçar, um diálogo Monty Python. Primeiro pergunta se eu trazia a vaca comigo, fazendo de conta que falava para o Cláudio; depois se andava a trabalhar com o Cláudio, já mudando o disco e fazendo de conta que eu era “um rapaz que costuma andar com ele”. Finalmente a fase das desculpas, ia a passar e viu umas laranjas no chão (tem óculos de longo alcance). Depois da conversa, pelo menos foi virar a água do barroco para fora do terreno, a meu pedido. Alguém a vira para dentro e é tanta que inunda a Fonte do Cavalo, desce para a Leira das Nogueiras e vem parar ao estradão. A água é um problema constante. Quero dizer, as pessoas.
O resto do tempo, umas quatro horas, de pulverizador às costas a colocar Garlon nas silvas. Não que fosse muito, mas corri tudo e as silvas começam a ser poucas e é necessário olho de lince para as topar no meio da verdura. E eu faço uma aplicação o mais localizada que me é possível. Estou mortinho por acabar com o Garlon e passar realmente a 100% sem químicos. Já expliquei anteriormente o porquê do Garlon. Diria que neste momento o problema estará 80% controlado e espero não passar deste ano.
Entretanto, vejo o Cláudio a correr no estradão. Andava à minha procura. Ainda dava tempo, fomos para os seus terrenos. Fiquei bastante surpreendido, o avô dele tinha aquilo bem arranjado. Deve ficar tudo a seu encargo, pois o irmão tem 12 anos e a mãe não tem capacidade para gerir nada. Isto acontece numa altura em que ele está finalmente a trabalhar regularmente a ajudar um trolha da região. Tantos animais… Não tinham grande sorte nas mãos do avô… Enfim.
Fui ajudá-lo a cortar erva para as vacas — ele a cortar e eu a acartar. Apareceu o mais novo, disse-lhe para ajudar e lá veio ele. Ia de bola de futebol, desconfio que tinha outros planos. Fiquei uma vez mais surpreendido, desta feita com a quantidade de erva para um dia… Montes e montes. A manobra deu-me uma alergia atroz. Fiquei de rastos para final de dia.
O Cláudio lamentou o preço da gasolina para a roçadeira. É outra vertente do aumento dos combustíveis. De quem anda de carro, não tenho pena nenhuma. Que paguem. E pagam, porque não se vê o trânsito a diminuir. Mas para estas pessoas, no limiar da sobrevivência, sem o mínimo de margem de manobra, mais uns euros de gasolina gasta no fim do dia, faz muita diferença. Como já lhe tinha dito que dava a erva que precisasse do Sargaçal, combinei também pagar-lhe a gasolina.
As vacas estavam numa contrução de blocos de cimento, daquelas que ficam a meio da obra e que arruinam a paisagem. Não pude deixar de reparar numa antena de televisão. Perguntei quem vivia ali. Ninguém. É um palheiro. Fomos à parte de cima. Meio envergonhado, disse-me para não reparar na desarrumação. A um canto um frigorífico e uma televisão em cima. Uma espécie de banca… Uma espécie de fogão. Arroz colado. Restos de comida com dias ou semanas. Os olhos habituaram-se à penumbra. Do outro lado uns cobertores. Uma cadeira com mais cobertores. Seria um colchão no chão? Tive que sair a reprimir um vómito.
Obviamente alguém passava ali longas horas. Um local para lá da imaginação. E não entendo. Muitas mulheres trabalhavam para o avô do Cláudio e sei que almoçavam. Seria ali que faziam o almoço? É inconcebível. Disse ao Cláudio que tinha que limpar aquilo urgentemente. A fundo. Queimar o que for preciso. E cá para nós, na minha opinião, o melhor era queimar tudo e varrer aquele palheiro da paisagem.
Fomos ver o campo onde estavam as duas cabras. Mãe e filho. O cabrito, todo branco, ficou delirante de ver o rapaz. Andava para lá aos saltos e às corridas. Uma brincadeira inacreditável. Nem um cão ou um gato. Foi um bom lembrete da razão porque não como cabrito. A seguir foi-me mostrar onde semeou as batatas e onde vai pôr o milho. E tive de o deixar, porque tinha jantar na associação.
Para cima vinha um casal de testemunhas de jeová, ou coisa que o valha. Pelos vistos são visita habitual da mãe do Cláudio. Não sei que refrescos lhe andam a vender. Ainda dei boleia ao senhor Américo, até Vila de Muros. Combinei com ele irmos arranjar o bendito cano da água na próxima semana.

2 Responses to “De volta ao Vale”

  1. fernando

    Em primeiro os pêsames ao avô do Cláudio, e por curiosidade qual era o seu nome? E assim vai se desertificando um lugar.

  2. José Rui Fernandes

    Praticamente já só há pessoas de idade. Chamava-se Manuel da Rocha Andrade.
    Aproveito para informar que falei agora com o Cláudio que me disse que ficou o dia todo a limpar o palheiro…

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