Um resultado da natureza

Rui Ramos, um dos poucos articulistas por quem ainda mantenho alguma consideração, tem vindo a perdê-la paulatinamente, revelando-se em diversos assuntos demasiado parcial para o meu gosto. Neste artigo sobre os incêndios (Observador), destaca-se logo de início a frase “Os fogos florestais em Portugal são um resultado da natureza, como noutros países (…)”, desmentida no mesmo jornal por uma outra notícia sobre um tal de Paulo Gonçalves, o incendiário confesso da Madeira. Este indivíduo, que só anda por aí a vegetar e a fazer mal, já tinha sido condenado em 2011 por fogo posto (teria uns 19 anos), em bom rigor também é um resultado da natureza, essencialmente da dele. Deve ser portanto à natureza humana que Rui Ramos se refere, nesta espécie de argumentário anti-estado.
Como se não bastasse utiliza uma técnica de desinformação que para mim é deplorável e facilmente reconhecível de toda a leitura da gente anti-ciência que continua por aí a negar o aquecimento global. Rui Ramos, escolhe um intervalo temporal favorável a uma ideia preconcebida e desenvolve a partir daí um raciocínio que nasce torto e nunca se endireita. Há 200 anos, Portugal realmente seria um país de cumes desérticos, quase sem floresta e de facto os oficiais de Wellignton (sic) terão sido surpreendidos com a enorme nuvem de pó que o vento levantava nos cabeços despidos dos arredores de Lisboa (hoje devem estar vestidos de alcatrão e cimento, não há poeirada), mas… tal como se diz que a base do império britânico foi o Carvalho-inglês, ou anteriormente a árvore da expansão dos fenícios foi o Cedro-do-Líbano que era negociado com os egípcios (que não possuíam madeira), em Portugal para se chegar ao estado que dá jeito ao Rui Ramos, também se abateu muita floresta — virtualmente toda.
O que falta dizer é que o nosso império não foi construído em alicerces de eucalipto, um historiador devia sabê-lo, isso é o império da celulose e dos interesses que desgraçam o nosso país. Um texto sobre fogos florestais que não menciona uma única vez o eucalipto é algo bizarro. Para o autor, deve ser mais um resultado da natureza (humana, que os planta ao ponto de serem já 26% da nossa floresta). Não sei que árvores foram a base para o nosso desenvolvimento, mas não devo andar muito longe se referir o Freixo, o Castanheiro, o Carvalho, obviamente o Sobreiro, a Oliveira… querer fazer de conta que não tínhamos floresta para justificar incêndios de hoje em floresta desordenada sem qualquer tipo de gestão, sem serviços florestais, de espécies pouco adequadas ao nosso interesse futuro, não é um contributo positivo, nem a considerar.

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