As mãos sujas de sangue

Foi artilharia todo o dia. E cães a ladrar. E berros. Que situação incomodativa. Estavamos a plantar cerejeiras, quando aparece um personagem vestido pitorescamente, incluindo boina e faca de mato. Exalava felicidade. Não pude deixar de notar que tinha as mãos sujas de sangue.

Começa a explicar que estavam numa batida ao javali, que atingiram um que foi morrer junto do ribeiro, mas na outra margem. A minha reacção foi elucidativa. Continuei a olhar para ele. Já em desespero de causa, perguntou-me se falava português.
Comecei por perguntar se era legal o que andavam a fazer, para ali aos tiros tão perto dos campos onde há pessoas a trabalhar. Legalíssimo! Aliás, tão legal, tão legal, que só faltou dizer que ali o ilegal era eu. Tinham autorização da Direccção Geral das Florestas, traziam fiscalização, tudo nos conformes da lei. E podiam andar onde queriam desde que não arrombassem ou estragassem nada. É o país que temos. A saque.
Passando ao assunto principal, queria o destemido caçador, que lhe desse passagem pelo estradão para ir de jipe buscar o javali. Negativo. Pelo meu terreno não passam. Ainda tentou uma argumentação que era vizinho, que se eu precisasse de passar nos terrenos dele, blá, blá. Expliquei-lhe que não ia de jipe para os terrenos dele, nem de ninguém. E a pé também não.
Lá se foi embora, sempre de sorriso nos lábios. Não ia ser um proprietário desmancha prazeres como eu, que lhe ia estragar a alegria da matança.
A propriedade privada, apesar do nome, não significa nada para os caçadores. Nem como proprietário tenho direito à não caça. Só pagando e entregando em suporte informático a planta do terreno. O que faremos mal tenhamos a planta. Que mais podemos fazer, quando o estado é o maior gatuno?
E também há a questão das armas, que nunca deviam andar como andam, na mão de toda a gente. Uma notícia azedou-me o jantar. Um velho tresloucado matou três pessoas numa aldeia com apenas cinco habitantes. Mais um crime hediondo com uma caçadeira — felizmente devidamente legalizada. O jornalista, na infinita perspicácia que os caracteriza, queria saber da legalidade da arma do crime e da pistola com que o autor se suicidou posteriormente. A pistola lamentavelmente não estava legal, o comandante da GNR lá do sítio desdobrou-se em explicações. Por muito que se fiscalize, é impossível garantir que as armas estejam todas legais.
Os caçadores, mesmo tendo o direito a possuir armas nunca as deviam ter em casa. Deviam ser obrigados a depositá-las num posto policial, onde as levantariam em dia de caça. E deviam pagar, para a polícia garantir a segurança desse armamento. Evitavam-se muitos acidentes com crianças. Caça fora de época. E muitos dos crimes violentos, que se praticam todos os anos por esse país fora, com essas legalíssimas armas.

5 Responses to “As mãos sujas de sangue”

  1. Maria

    Ao ler este texto não pude deixar de sentir alguma revolta…
    Preocupa-se o governo com leis de castração da liberdade como a proibição de fumar em locais públicos mas com o respeito pela propriedade privada e com o porte de armas, pelos vistos, é praticamente indiferente! Mesmo quando, todos os dias, crimes macabros são cometidos com caçadeiras ou quando temos as nossas propriedades privadas invadidas por outro tipo de assassinos… Não os das pessoas mas os dos animais! Continuem assim… afinal é este o estado de direito que temos! Não terão, certamente, é o meu apoio e o de muitos outros portugueses.
    Peço desculpa pelo desabafo mas depois de ler este texto foi impossível resistir a expressar a minha opinião!
    M

  2. caçador

    ainda falam de castração da liberdade, e desrespeito pela propriedade privada.
    uma arma é uma propriedade privada ou não?
    e assiste aos caçadores o direito à caça caso não saibam.
    um direito igual ao do direito à propriedade.
    pena é que alguns proprietários pensem que também são donos dos animais selvagens que estão nas suas propriedades!
    O princípio do direito é o de que só se deve privar ou limitar um direito ou uma liberdade se este afectar um direito ou liberdade mais importante a terceiros.
    Concordo obviamente que a segurança é um tal direito e assim sendo os caçadores devem abster-se de caçar quando na proximidade de pessoas e bens. É aliás de lei!
    Quanto à ideia do “banco de armas”, saiba que se mata mais com armas brancas, facas de cozinha, paus e machados do que com armas de caça. também se mata mais com armas ilegais e uma tal medida como a que defende aumentaria exponencialmente o número de armas ilegais

  3. José Rui Fernandes

    ainda falam de castração da liberdade, e desrespeito pela propriedade privada.
    uma arma é uma propriedade privada ou não?
    e assiste aos caçadores o direito à caça caso não saibam.
    um direito igual ao do direito à propriedade.

    As coisas que o senhor sabe! Por falar em inversão de valores.
    O direito à caça deve ter sido atribuido directamente por Deus.

    pena é que alguns proprietários pensem que também são donos dos animais selvagens que estão nas suas propriedades!

    Ora aí está. realmente é uma pena que ainda exista quem queira conservar e não destruir. Os donos dos animais são os caçadores, toda a gente sabe disso. Eles é que têm direitos sobre tudo o que voe, caminhe ou rasteje, quer seja em propriedade pública, como em propriedade privada.

    Concordo obviamente que a segurança é um tal direito e assim sendo os caçadores devem abster-se de caçar quando na proximidade de pessoas e bens. É aliás de lei!

    Exacto! E a lei é algo que os caçadores cumprem escrupulosamente, toda a gente sabe disso. Aliás, alarvemente observado na situação que descrevo.

    Quanto à ideia do “banco de armas”, saiba que se mata mais com armas brancas, facas de cozinha, paus e machados do que com armas de caça. também se mata mais com armas ilegais e uma tal medida como a que defende aumentaria exponencialmente o número de armas ilegais

    Eu a pensar que os caçadores eram cumpridores da lei… Mas afinal iam logo a correr às armas ilegais. Aliás todos as têm, como o senhor deve saber muito bem.

    E com o senhor “caçador” acabou a conversa, que aliás tenho dúvidas que entenda.

  4. Marco

    Eu acho q caça só deveria haver uma vez ou duas por ano. detesto caçadores, já tive más experiências com eles. Para além de ser uma crueldade o que fazem com os bichos ( não acho que matar animais indefesos seja um desporto, nem acho que a caça hoje em dia seja util, pois já não há necessidade de caçar para comer), eles tambem destroiem as vedações e nem querem saber para onde estão a disparar. Como por exemplo eu estar um domingo em minha casa a descansar á sombra da sobreira e de repente oiço tiros e sinto chumbos a cairem-me em cima, ou eu estar na horta ou a arranjar o carro e chumbos a cair, e o mais engraçado é que estavam dentro do meu terreno que estava vedado por causa dos animais (porcos e caes) e eles nem pensaram que se o terreno esta vedado é por algum motivo. E ainda tinham a lata de dizer que tem cuidado e que os chumbos já vem frios, e eu disse-lhes então eu vou atirar pedras para dentro da sua casa para ver se gosta. Quanto as armas acho que o que tem de bom tambem tem de mau eu gostava de ter uma.

  5. Cyro A.M. Fischer

    Não caço. Mas não sou contra, desde que ocorra somente dentro da “temporada de caça”, ou seja, obedecer a lei da natureza: REPRODUÇÃO E CRIAÇÃO. Tendo isso em mente e abatendo o numero permitido por lei (…dos homens), estaremos preservando, mantendo a fauna e realizando algo que gostamos (caçar e comer). Particularmente prefiro o último.

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