Chamas extintas

Há muito tempo, li num site do governo australiano que a única arma eficaz contra os incêndios em propriedades rurais, era armazenar água num sítio alto e ter um sistema a funcionar exclusivamente por gravidade. Que as moto-bombas e outros aparelhómetros falham sempre que se precisa deles.

Foi o que fizemos e foi isso que nos salvou o terreno hoje. E os dos vizinhos. Os bombeiros trabalharam quase exclusivamente com as nossas mangueiras (na zona em causa, 3-4Kg de pressão nas calmas) e não precisaram de ir abastecer.
Não salvaram os limoeiros, tangerineiras, a maior parte das laranjeiras, uvas de mesa e uvas-espim (as Gooseberries, carregadinhas de frutos e das quais pelos vistos já não vamos trocar estacas). Isto do que plantamos. O resto, castanheiros e carvalhos, talvez uma oliveira ou outra. Temos lá um castanheiro magnífico, que julgo que sobrevive. Ardeu um pedaço completo que mandei não limpar “para abrigar a vida selvagem”.
Tinha planeado ir amanhã, já não vou. Acho que não aguentava. Estou por um cabelo, para virar costas e não olhar para trás. Quem corre por gosto também cansa e eu já ando cansado há uns tempos.
No sábado passado, que andei sob uns infernais 35°, reguei até literalmente acabar a água (o Tanque 2 ficou seco, mesmo com água sempre a entrar), corri tudo no meio das ervas, para trás e para a frente. O detalhe é que a minha velha alergia ao pólen das gramíneas, resolveu manifestar-se. Comecei a ficar cada vez pior e estava a ver que já nem chegava a casa. Quando cheguei, estava com falta de ar, nariz a pingar copiosamente e olhos de zombie. Quando tirei a t-shirt parecia o Jesus Cristo, onde as ervas me tocaram, eram marcas que parecia que tinha sido vergastado. Fiquei abatido e quase que não fui à Feira Biológica no Domingo. Só lá estive uma hora, diminuido fisicamente.
As coisas já são difíceis que chegue, por definição. As despesas brutais. Já estou na fase de me “esquecer” de algumas coisas, para nem fazer contas. Compramos as árvores, plantamos as árvores, tudo por gosto. Não temos apoios nem subsídios. Depois vem um canalha e queima-nos tudo?
É a segunda vez, que o fogo começa no terreno vizinho, no mesmo local (esse senhor entretanto até faleceu). A primeira vez, tínhamos comprado o terreno há um mês e quase que ardiam as laranjeiras enormes (que se voltaram a salvar, acho eu). Foram uns 100 ou 200m2. Desta vez, calculo uns 1500 ou 2000m2 e mais uns 5.000-10.000m2 à volta. Depois verei.
Muitos especialistas se têm manifestado sobre os incêndios que dizimam o país de alto a baixo. Teoricamente concordo. Claro que o tempo está péssimo, com ou sem aquecimento global; claro que o mundo rural está ao abandono; claro que em consequência, as matas estão mais sujas; claro que o ordenamento florestal não existe; claro que há falta de meios; etc, etc. Mas, a grande causa dos incêndios neste país é só uma e chama-se impunidade. Isto é fogo posto, num terreno abandonado, que passa para um razoavelmente limpo, que também arde. Pude comprovar isso em pleno Inverno e não haja ilusões, não há limpeza que evite os incêndios criminosos ou negligentes.
Quanto andamos a cavar 1,5Km para enterrar o tubo de duas polegadas, era também a pensar nos incêndios — daí as 2″. Acho que foi necessário cedo demais. Desta vez resultou. Nem por isso me sinto mais animado. Pelo contrário.

9 Responses to “Chamas extintas”

  1. cerveira pinto

    Caríssimo José Rui.
    Não sei se é maior a raiva ou a tristeza… No Sábado fui a Boassas e já então, de madrugada, andava um incêndio por essas bandas. Imediatamente pensei no Sargaçal… Que raio de prenúncio.

    Todos os anos é a mesma história.
    O coração sempre nas mãos em cada dia quente…

  2. Rosa

    É realmente muito desanimador e a maior das aflições quando o fogo arrasa desta forma o nosso trabalho e dedicação (já me aconteceu duas vezes), só lhe posso dizer uma coisa NÂO DESISTA!! porque é fantástica a capacidade de renovação da natureza e daqui a um ano verá que a zona ardida ganhou nova vida e com a sua ajuda pode até ficar bastante melhorada.
    De uma coisa infelizmente nunca nos conseguimos libertar, o medo de que ele volte.
    Quanto às alergias (como eu o compreendo) acabam por passar….
    Rosa

  3. Pedro

    É com pena que leio estes dois últimos posts. Só espero que não desanimes e dês a volta a esta situação.
    Um abraço
    Pedro

  4. Luciano

    É uma dor de alma…

    Aqui no vale do Sousa, as sirenes do bombeiros tocam quase ininterruptamente. E se por acaso me tenho de ausentar de casa, é com ansiedade que regresso, a olhar o horizonte à procura de fumo que possa surgir no local errado.

    Até agora tivemos sorte (porque é mesmo de sorte que se trata!). As chamas já rondaram perto, bem perto. Vi o incêncio começar… do nada aparece uma coluna de fumo, bem no meio do monte defronte do rio… e pouco depois mais outra uns metros à frente. Mau, quem anda ali?

    Valeu a pronta intervenção dos bombeiros e a limpeza que o dono do monte tinha feito no Outono.
    Do responsável não faço ideia. Só não consigo perceber porquê?

    Um abraço solidário!
    E lembra-te que a Natureza abomina o vazio.

  5. Filipe

    Não desanimes, ás vezes é de derrota em derrota que se chega à vitória final. As uvas espim lembra-me em Outubro Novembro que te envio umas mudas.

    Um abraço

  6. OLima

    Felizmente que se poupou muita coisa. Essa cena aí em Bestança faz-me lembrar outra, muito pequena que não resito em partilhar convosco. O ano passado, estava a passar uma semana de férias em Couto de Esteves. Uma tarde, depois do jatnat, – era ainda claro -, vi do outro lado do vale uma coluna de fumo erguer-se. Perguntei aos donos da casa como se chamava o lugar da coluna de fumo. Chamei logo o 117 e forneci os dados. Dez minutos depois ouvi as pás de um helicóptero e, logo depois, lá apareceu o bicho, deu uma volta e foi-se embora. 10 minutos depois estava a despejar água por cima do fumo. ´Felizmente acho que ajudei, na altura, a resolver um problema. É horrível esta mania dos fogos. Que será preciso fazer para acabar com isso?

  7. jrf

    Agradecemos as palavras de todos.
    Uma vez também presenciamos uma série de incêndios, chamamos os bombeiros e ninguém apareceu. E o resultado não foi assim tão negligenciável quanto isso. Na altura, lembro-me que também me chocou a “coolness” com que a maior parte dos caminheiros encararam a coisa — tipo, “não é nada comigo” (os menos “cool” voltaram para trás). Só eu e mais meia-dúzia tentamos dominar as chamas com uns ramos e terra.
    A minha opinião, depois da prevenção e do combate, é só uma: Reprimir e reprimir fortemente. Andam para aí a fazer cócegas aos incendiários e criminosos em geral, mas se fosse a doer, mas a doer fortemente, acabavam logo metade dos incêndios. Disso não tenho dúvidas. Mas não, os poucos que apanham, têm sempre advogados que os dão como tolinhos. Os que não enganam os juízes apanham penas que é gozar com quem trabalha. Ao fim de meia dúzia de meses e outras tantas amnistias estão cá fora.
    Desde a antiguidade que o fogo posto era considerado o pior dos crimes. Pior que matar.
    Não há prevenção e combate que resista a estes criminosos. Como se pode combater 10 ou 12 focos de incêndio que aparecem de seguida?
    Para terminar… Aqui há uns anos estava em Mafra, na tropa e já não dormiamos há duas noites. Andavamos para lá “atrás das linhas do inimigo” a patrulhar, eram 2 ou 3 da manhã. Para nosso espanto, começamos a ver pequenos fogachos a aparecer. Um, depois passados uns 20-30m outro, depois outro… Pelos rádios militares chamamos a polícia e os bombeiros. Isto foi fora da tapada. Como sabem, a tapada acabou mesmo por arder há pouco tempo. Aquilo é uma riqueza insubstituível e o trabalho que lá fazem, muito meritório.
    É revoltante de se ver. Que merece um pulha destes? Prisão perpétua já chegava. Tinha tempo de curar a sarna e perdia a mania de pôr fogos. Depois morria e pronto. Estava resolvido.

  8. cerveira pinto

    Já muitas vezes tenho chamado os bombeiros para incêndios que começam no vale do Bestança… Muitos deles de noite, o que é sempre estranho…
    Quanto aos incendiários, tenho uma outra sugestão. Trabalhos forçados a plantar árvores até ao fim da vida…

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